segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A desculpa do século



Em primeiro lugar, é preciso esclarecer: como portadora de útero, sei muito bem que nenhuma mulher (sã) finge ou simula sintomas de Tensão Pré-Menstrual. Não subestimo de modo algum seu sofrimento, amiga. Cada vez – ou melhor, cada mês – que passo por isso, tenho mais certeza de que os homens vieram ao mundo a passeio, ou de que a TPM é, na verdade, o nosso castigo pelo pecado original. Temos, portanto, somente a agradecer a Deus por ter sido tão mais camarada com Adão que com Eva. Só que não.

Sinto todas as suas cólicas, querida. De tanta dor, já fiz vômitos e me descabelei feito uma doida deitada no chão do banheiro, e só melhorei depois de entrar em comunhão com Santo Buscopan Intravenoso. Claro, claro, sei que não é drama da sua parte quando você diz que vira uma baleia no período pré-menstrual. Eu também me sinto assim e lamento não ser rica feito a Angélica, que faz drenagem linfática toda semana e não desmarcar esse compromisso nem pra ir a velório. Pode crer que também acredito nas suas dores de cabeça. E entendo sua vontade de mandar seu namorado tomar no cu quando ele diz que sua cara está cheia de espinhas porque você comeu chocolate, não porque os hormônios fazem a sua pele ficar tão oleosa que você tem a impressão de que vai achar um poço de petróleo nela. Jamais duvidarei também de que essas mesmas variações hormonais fazem com que seu humor vá de zero a cem em menos tempo que em um carro de Fórmula 1. E que, portanto, é super compreensível que você se emocione vendo “Zorra Total” no sábado a noite, acorde achando que o mundo é cor-de-rosa de manhã cedo, e tenha vontade esfaquear sua vizinha à tarde porque ela teve a audácia de respirar.

Eu saco isso tudo, gata. Mas nem eu, que também tenho uma periquita no meio das pernas, te perdôo se você agir como se o mundo tivesse que te compreender por sofrer de TPM, e assim tenha que suportar seus pitis, sua fúria, sua revolta, qualquer lixo desses. Porque o que a gente sente é uma coisa, às vezes inevitável. Agora, como a gente age em relação ao que está sentindo é outra, completamente distinta, e que certamente está sob nossa governança.

Não tem a ver com hormônios, mas com maturidade. Para entender, por exemplo, que ser adulto é espremer o dedinho na porta e não poder mais dar uns safanões no cachorro pra descontar a raiva depois. Desculpe, você não é diferente de uma criança que chora porque está com fome, ou que faz pirraça quando está com sono ao descontar toda a sua raiva hormonal nos outros. Grow up. Há muito tempo você já virou mocinha e sabe que crescer é aprender a controlar o esfíncter, as emoções, os instintos, e outras cositas mas.

Não venha também com esse papo – ou melhor, esse devaneio coletivo – de que é legal quando você, esse ser único e especial, bota para fora o que está dentro do seu coração. Bem à moda do discurso Big Brother Brasil, tem gente que chama a grosseria que lhe é peculiar na TPM (e às vezes por toda a vida) de “sinceridade”, “transparência”, ou pior, “espontaneidade”. “Eu sou muito sincera e transparente, não consigo esconder o que estou sentindo. Mas pelo menos as pessoas sabem com quem estão lidando”. Tá bom, Irislene Stefanelly. Mas a real é a seguinte. Só sua mãe acha legal sua espontaneidade, possivelmente porque ela acha lindo até quando você caga. O resto do mundo, tenho certeza, prefere quando você pensa antes de falar e de agir. Aliás, diga-se de passagem, eu detesto gente espontânea – particularmente quem assim se denomina. Espontâneo, pra mim, é quem não tem superego ou é pretensioso o suficiente para achar suas impressões e sentimentos interessam e, assim, sempre os manifestam. Ou é mesmo um egoistinha que não tem por hábito se colocar no lugar dos outros, portanto não reflete sobre a maneira como reage ao que rola à sua volta.

Não, a Ciência também não nos redime na TPM. Ela nos explica. Ok, é cientificamente comprovado que a tendência para virarmos megeras nesse período existe por causa dos hormônios. Mas a Ciência não nos justifica. Justifica, no máximo, nossas avós. Elas sim, eram obrigadas a enfrentar TPMs e menopausas sem alternativas de tratamento ou sem saber direito pelo que estavam passando. A gente não, filha. A gente sabe e por isso mesmo tem obrigação de se tratar. Agora, se você não pode tomar pílula anticoncepcional, fazer tratamento fitoterápico, meditar ou sabe-se lá o quê porque acha que isso é “uma agressão ao seu corpo, e à natureza humana” (juro que já ouvi essa justificativa) – embora não veja problema em agredir os outros para se aliviar naqueles dias – é muito simples: corte os pulsos. Ou entenda que você talvez não tenha nascido para viver em sociedade e que deve, sei lá, se enclausurar para sempre em algum lugar no Tibet. Pode ainda se trancar no guarda-roupa cinco dias por mês. Que tal? Dentro do armário, ou você consome a TPM ou sai de lá consumida por ela. Mas quem está do lado de fora e não tem nada com isso permanece inteirinho.

É claro que, vez ou outra, é possível que a gente perca o controle. Mas olha só: VEZ OU OUTRA. Não todo mês. O que tenho observado, entretanto, é que a tensão pré-menstrual tem se transformado num grande subterfúgio feminino. Um período que as mulheres tem aproveitado para exercer suas infantilidades, descontar suas frustrações, culpar os outros e os hormônios pela própria infelicidade, justificar seu egoísmo, sua fraqueza, sua incompetência para muitas coisas. Muito mais fácil pintar tudo isso de vermelho-menstruação que encarar e resolver.

Pergunto-me se foi para isso mesmo que deixamos as fraldas. Se foi para nos transformamos na mesma figura a quem tanto criticamos nos passado – aquela que, como bem disse uma amiga, costumava jogar no álcool a culpa pelas desgraças que faz.

1 me engana, que eu gosto:

Cacá - José Cláudio disse...

A imaturidade é escamoteada de várias formas. Às vezes, nem reconhecida como sendo imaturidade. Então, nada melhor do que a universalmente aceita TPM. E não me xingue se por acaso você tiver escrito esta maravilhosa crônica "um pouco nervosa."(brincadeirinha) rsrs. Gostei muito, Cecília Abração. paz e bem.