quinta-feira, 4 de março de 2010

Reconhecimento do Amor (II)


Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu

Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria.
C.D.A



Tenho uma teoria sobre a carência. Aliás, tenho várias, mas uma delas é que as pessoas entram em relacionamentos amorosos e deles se tornam tão dependentes porque, para elas, essa é a única maneira de receber – e ter alguém a quem direcionar - abraços, beijos, declarações de amor e tudo mais de que a gente precisa pra ser feliz. E por isso mesmo ficam tão perdidas ao sair desses relacionamentos, justamente porque os enxergam e cultivam como os únicos sólidos, válidos e duradouros de suas vidas.

É claro que um tipo de relacionamento não substitui o outro. Um pai não vale por um namorado e vice-versa. Mas onde eu quero chegar é: muita gente não sabe cultivar amigos. Observo as pessoas que me cercam e vejo que, para muitas delas, amigo é alguém com quem se divide afinidades e momentos, sobretudo os da juventude, mas cuja importância é coadjuvante. Tenho a impressão de que o melhor de nós, para essas pessoas, deve ficar reservado apenas aos namorados e cônjuges: afeto, carinho, lealdade, compreensão, entre outras coisas tão legais de que somos capazes. Tanto que é comum vê-las se afastarem dos amigos, quando comprometidas. Todo o investimento fica voltado para o parceiro – sujeito da relação que realmente importa.

Eu tenho com meus amigos uma relação de amor (não amorosa, são coisas diferentes). Porque amizade pra mim é isso: uma relação de amor, o mais bonito e generoso que já senti até hoje. Não apenas por não pressupor exclusividade. Mas também porque é capaz de fazer aflorar que há de melhor em nós – gratuitamente.

Outro dia, me perguntei assim: quando, na vida, posso dizer que fui melhor pessoa? Grande parte das situações envolvia um amigo. Por meus amigos já larguei tudo e fiz as malas para estar a seu lado em outra cidade, na morte de um ente querido. Comprei suas brigas sem perguntar se eles tinham razão. Omiti fatos e circunstâncias porque sabia o quanto isso os faria sofrer. Mas também já os enfrentei para dizer boas verdades, quando julguei que era para o seu bem, mesmo sabendo o quão desgastante e conflituoso isso seria. Passei madrugadas planejando presentes. Senti orgulho. Compartilhei constrangimentos.

Tudo isso, naturalmente, também emerge quando penso no tamanho da generosidade dos meus amigos para comigo. Logo eu, que tenho tantos defeitos. Tem o Fred que continua indo ao cinema comigo sempre, apesar de me esperar uns bons trinta minutos no shopping, porque eu sempre chego atrasada. Tem o Luís que me busca de madrugada no trabalho, dizendo que prefere cruzar cidade a não dormir de preocupação. Tem o Odilon, que me dedica suas peças e já viajou quilômetros só pra passar meu aniversário comigo. Tem o Pedro e a Priscila. Tem a Alice. Tem o Marcelo. Tem a Luciana. Tem o Lucas, tem o Ru, tem tanta gente.

Não que gestos como esses sejam exclusivos das relações de amizade. A diferença é que, nesse caso, não há laços sanguíneos que os pressuponham, ou, como nos casos dos namoros e casamentos, não há aí um certo “sistema de recompensas”. Um gesto generoso direcionado a um amigo não vai render sexo, suspiros, reafirmações de sentimento, ou ainda: qualquer sensação de garantia de que o outro vai permanecer ao seu lado. Aliás, o mais bonito das amizades, pra mim, talvez seja isso: você ganha seu amigo e ele está ganho. Faça a burrada que for, e ele continua lá. É muito difícil (embora não impossível) perder um amigo verdadeiro, porque nesse amor cabe compreensão e tolerância sem tamanho.

Inclusive porque eu acho que ele já nasce um pouco mais maduro que os outros. O formidável escritor Fabrício Carpinejar uma vez disse que a insistência é que produz o amor, não o deslumbramento. Por isso, não é de se espantar que muitas paixões avassaladoras acabem depressa. É porque a aposta no primeiro contato foi muito alta, e, quando encanto acaba, as pessoas costumam desistir. As amizades, ao contrário, é natural que nasçam da insistência. Seu melhor amigo possivelmente não é o menino por quem você babava no colégio, o mais bonito e popular. É comum que seja aquele você, quando conheceu, achava bem antipático e de quem até falava mal. Ultrapassada essa barreira, você ficou mais bem preparado para o que veio depois, além de mais aberto a agradáveis surpresas. O que se construiu a partir daí é certamente sólido e duradouro.

No altar, eu diria ao meu marido: te prometo ser leal até que o amor acabe. Porque, em se tratando de relacionamentos amorosos, é tudo o que a gente consegue prometer com chances reais de cumprir. E mesmo assim é lindo. E mesmo assim vale a pena. Mas é a meus amigos que digo, sem medo: prometo-lhes ser fiel até que a morte nos separe. Amém.

5 me engana, que eu gosto:

Ruleandson do Carmo (RU) disse...

Oi, amiga!

Obrigado por ter me citado no texto! :D Não sei se falarei de algo que não está em seu texto, mas acredito que um dos grandes problemas hoje é não termos paciência para de fato conhecer alguém e nos tornarmos amigos ou amantes de quem a pessoa realmente é, não da projeção dela. Fez algo errado, adeus, já era, você não presta para aquele alguém... Não parece tão legal? Alguém definiu a pessoa a você e sua preguiça gostou de não precisar conhecer, mas julgar pela avaliação do outro? Ótimo!

Não que algo tenha que ser eterno, as pessoas se esquecem da manutenção da amizade e do amor... E é sim preciso cultivar, aceitar o que é característica do outro, o que é defeito, o que é qualidade e ainda assim amar. Um professor meu disse uma vez que gostamos por causa de, e amamos apesar de. Penso ser por aí! Beijos!

Fred Bottrel disse...

Faço minha a sua jura, meu amor! =)

Pri disse...

Adorei!!!! E sou muito orgulhosa por pertencer a sua "lista" de amigos. Você também está, com certez, na minha!

Cacá disse...

Creio que há dois instintos básicos em nós. Um gregário e outro egoísta, ambos ligados à necessidade da sobrevivência. Nas relações sociais, um ou outro vai se sobrepondo na medida de nossas influências recebidas e transmitidas. No atual andar da carruagem onde impera o "salve-se quem puder" e "me ajude que eu preciso chegar lá", é comum haver um acúmulo de carências que, se não bem tratadas (com a maturidade necessária( a tendência é criarem-se relações fugazes, superficiais mesmo que com aparência de sólidas, solidárias e de afeto verdadeiro). Um espetáculo o seu artigo. Abração. Paz e bem.

Bárbara Gusmão disse...

Eu simplesmente amei e concordo com tudo. Acho mesmo que é preciso amor para que se conheça alguém, senão vivemos ao lado de uma imagem criada por nós mesmos. E relações de amizade partem, normalmente, do conhecimento, então é digno que as pessoas saibam ser amigas, pacientes e que aprendam a valorizar, ainda que seja triste o tempo em que vivemos... Enfim, acho que me enrolei, mas, ao final, é tudo uma baguncinha mesmo... Beeijos .*